O motor imóvel na metafísica aristotélica

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, História da filosofia, Questão 08: A metafísica em 30/10/2011 por Gustavo Bertoche

Selecionei trechos do livro XII da Metafísica de Aristóteles. Esses trechos tratam do “primeiro motor”, o “motor imóvel”, que, de acordo com Aristóteles, é a causa primeira de todas as coisas que existem.

A tradução é de Lucas Angioni e pode ser encontrada aqui.

METAFÍSICA – LIVRO XII (trechos)

Alguém poderia indagar: de que tipo de não-ente procede o vir a ser? De fato, “não-ente” comporta três modos. Dado que há algo em potência, não procede de qualquer não-ente, mas, a partir de um não-ente distinto, é um ente distinto que vem a ser. Não é suficiente dizer “todas as coisas juntas”. Elas são diferentes pela matéria, pois por que haveriam de se tornar infinitas, mas não uma só? A Inteligência é uma só, de modo que, se também a matéria fosse uma só, surgiria efetivamente tal e tal coisa, que a matéria era em potência.

Portanto, são três as causas e três os princípios: a contrariedade são dois (dos quais um é a determinação e a forma, outro, a privação), e o terceiro é a matéria.

(…)

Dado que, no domínio das coisas naturais, aquilo que propicia movimento em relação a um ser humano é um ser humano, e, no domínio das coisas que se dão por pensamento, é a forma ou seu contrário, de certo modo as causas são três, mas, de outro, são quatro. De fato, a arte medicinal é, de certo modo, a saúde, a arte de construir é, de certo modo, a forma da casa, assim como um ser humano gera um ser humano.

Além dessas causas, há, ainda, aquilo que, sendo primeiro que tudo, move todas as coisas.

(…)

Dado que aquilo que é movido e propicia movimento é intermediário, há algo que propicia movimento sem ser movido, sendo uma essência e uma atividade eterna. Propiciam movimento desse modo aquilo que é desejável e aquilo que é suscetível de ser pensado: propiciam movimento sem serem movidos. As primeiras entre essas coisas são as mesmas. De fato, aquilo que aparece como belo é apetecível,mas o objeto do querer, primeiramente, é aquilo que é realmente belo. Desejamo-lo porque parece-nos ser belo, em vez de parecer ser belo porque desejamo-lo, pois, de fato, é o pensamento que é princípio.

(…)

Ora, se algo é movido, pode ser de outro modo; conseqüentemente, se sua atividade for a locomoção primeira, ele poderá ser de outro modo na exata medida em que sofre movimento – no lugar, ainda que não em sua essência. Mas, dado que há algo que propicia movimento sendo ele próprio não-suscetível de ser movido, e que está em atividade, não é possível, de modo algum, que tal coisa seja de outro modo. Ora, a locomoção é a primeira das mudanças, e é primeira a locomoção circular. É esta que tal coisa promove.

Portanto, tal coisa é necessariamente, e, na medida em que é necessariamente, é de modo belo, e é assim que ela é princípio. De fato, “necessário” se diz desses modos: por violência, porque é contra o impulso; aquilo sem o que não se dá o que é bom, e aquilo que não pode ser de outro modo, mas é de modo absoluto.
Portanto, é de um princípio desse tipo que depende o céu e a natureza. Sua fruição é como aquela que nos é a melhor, por pouco tempo (tal princípio é sempre desse modo, mas, para nós, isso é impossível), dado que sua atividade é prazer (por isso, o mais aprazível são vigília, percepção, pensamento, e, devido a tais coisas, as expectativas e as memórias).

(…)

Assim, pelo que foi dito, é evidente que há uma essência eterna, não-suscetível de movimento e separada das coisas sensíveis. Também está provado que não é possível que tal essência possua grandeza, pois ela é indivisível e desprovida de partes (de fato, ela propicia movimento por um tempo infinito, mas nenhuma coisa finita possui capacidade infinita; dado que qualquer grandeza ou é infinita ou finita, por isso, ela não poderia ter uma grandeza finita, nem uma grandeza infinita, porque,em geral, não há nenhuma grandeza infinita). Além disso, está provado que ela não é suscetível a modificações e alterações, pois todos os demais movimentos são posteriores ao movimento local. Assim, é evidente porque essas coisas são desse modo.

(…)

O princípio, isto é, o primeiro entre os entes, é não-suscetível de movimento, em si mesmo e por concomitância, e promove o movimento primeiro e eterno, que é único. Dado que, necessariamente, aquilo que é movido é movido por algo; dado que o primeiro motor é, em si mesmo, não-suscetível de movimento; dado que o movimento eterno é promovido por algo eterno, e um movimento único, por algo único; dado que, além da locomoção simples do Todo, a qual dizemos que a primeira essência não-suscetível de movimento promove, vemos que há outras locomoções eternas, a dos planetas (de fato, o corpo que se move em círculo é eterno e sem-repouso; provou-se isso nas discussões sobre a natureza), necessariamente, também cada uma dessas locomoções é movida por uma essência eterna que, em si mesma, é não-suscetível de movimento. De fato, a natureza dos astros é eterna, sendo uma essência, e o que os move é eterno e anterior ao que é movido, e necessariamente é essência aquilo que é anterior a uma essência. Assim, evidentemente, é necessário que exista a mesma quantidade de essências eternas em suas naturezas e, em si mesmas, não-suscetíveis de movimento e desprovidas de grandeza, pela causa antes mencionada.

(…)

Que o céu é um só, é evidente. De fato, se os céus fossem muitos, como os homens, o princípio de cada um seria um pela forma, mas, numericamente, seriam muitos. Mas tudo que é numericamente múltiplo possui matéria (de fato, há uma única e mesma definição para as coisas múltiplas, por exemplo, para ser humano, mas Sócrates é um só); no entanto, o que é primeiramente “aquilo que o ser é” não possui matéria, pois é efetividade. Portanto, o primeiro motor, sendo não-suscetível de movimento, é um só em definição e em número; também o é, portanto, aquilo que se move sempre continuamente: portanto, o céu é um só.

Física de Aristóteles: o lugar natural

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, História da filosofia, Questão 06: A ciência em 29/10/2011 por Gustavo Bertoche

FÍSICA, III

Todo corpo sensível está por natureza em algum lugar, e há um lugar próprio para cada corpo, o mesmo para o todo e para cada parte sua; por exemplo, o mesmo para toda a terra e para um pouco de terra, o mesmo para o fogo e para uma centelha.

FÍSICA, IV

Os movimentos típicos dos corpos naturais elementares – fogo, terra, etc. – mostram não apenas que o lugar é alguma coisa, mas também que ele exerce uma certa influência. Cada coisa é levada ao seu próprio lugar, se não é impedida; uma coisa para cima, outra para baixo. Similarmente, também, “para baixo” não é uma direção, mas aonde o que tem peso e o que é feito da terra – a implicação é que esses lugares não diferem meramente em sua posição relativa, mas também por possuírem potências distintas.

Física de Aristóteles: o movimento natural

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 06: A ciência em 19/10/2011 por Gustavo Bertoche

De Caelo I

 

Todos os corpos e magnitudes naturais são capazes de locomoção; pois a natureza é seu princípio de movimento. Mas todo movimento que acontece em um lugar, toda locomoção, é ou reto ou circular ou uma combinação desses dois, que são os únicos movimentos simples. E a razão para isso é que esses dois, a linha reta e a linha circular, são as únicas magnitudes simples. A revolução em torno do centro é o movimento circular, enquanto os movimentos para cima e para baixo do centro são em linha reta, “para cima” significando o movimento do centro para fora, e “para baixo” o movimento na direção do centro. Todo movimento simples, então, necessariamente é um movimento para fora ou na direção ou em torno do centro. Isso parece estar de acordo com o que dissemos agora: um corpo tem sua compleição em três dimensões, portanto seu movimento se completa em três formas.

 

(…)

 

Podemos assumir que todo movimento é ou natural ou não-natural, e que o movimento que é não-natural para um corpo é natural para outro como, por exemplo, é o caso dos movimentos para cima e para baixo, que são naturais e não-naturais para o fogo e para a terra respectivamente. Daí segue-se necessariamente que o movimento circular, sendo não-natural para esses corpos, é o movimento natural de alguns outros. Além disso, se, de um lado, o movimento circular é natural para alguma coisa, essa coisa deve certamente ser algum corpo simples e primário que é levado a se mover com um movimento circular natural, assim como o fogo é levado a se mover para cima e a terra para baixo. Se, de outro lado, o movimento dos corpos que se movem circularmente em torno do centro é não-natural seria notável e, de fato, inconcebível que esse movimento sozinho deveria ser contínuo e eterno, sendo apesar de tudo contrário à natureza.

A filosofia política de Platão – por K. Popper

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 05: A política em 27/09/2011 por Gustavo Bertoche

A análise da sociologia de Platão facilita a apresentação de seu programa político. Suas exigências fundamentais podem expressar-se por qualquer destas duas fórmulas: a primeira, correspondente à sua teoria idealista da mudança; a segunda, a seu naturalismo. A fórmula idealista é: Detenha-se toda mudança política! A mudança é maléfica; o repouso, divino. Toda mudança pode ser detida se se fizer do Estado cópia exata de seu original, isto é, a Forma ou Ideia da cidade. E se se perguntasse como seria isso praticável, poder-se-ia responder com a fórmula naturalista: Volte-se à natureza! Voltemos ao estado original de nossos antepassados, o estado primitivo fundado de acordo com a natureza humana e, portanto, estável; voltemos ao patriarcado tribal do tempo anterior à Queda, ao natural governo de classe dos poucos sábios sobre os muitos ignorantes.

 

Creio que praticamente todos os elementos do programa político de Platão podem derivar-se dessas exigências. Estas, por sua vez, baseiam-se em seu historicismo e têm de ser combinadas com suas doutrinas sociológicas relativas às condições para a estabilidade do regime de classe. Os principais elementos que tenho em mente são:

 

A) A estrita divisão de classes, isto é, a classe governante, consistente de pastores e cães de vigia, deve ser estritamente separada do gado humano.

 

B) A identificação do destino do Estado com o da classe dirigente; exclusivo interesse por esta classe e por sua unidade; e, subordinadas a essa unidade, regras rígidas para criar e educar essa classe, com estrita supervisão e coletivização dos interesses de seus membros.

 

Destes elementos principais outros podem ser derivados, como, por exemplo, os seguintes:

 

C) A classe governante tem o monopólio de coisas tais como as virtudes e o adestramento militares, e o direito de portar armas e de receber educação de qualquer espécie; mas é excluída de qualquer participação nas atividades econômicas, especialmente a de ganhar dinheiro.

 

D) Deve haver censura de todas as atividades intelectuais da classe dirigente e uma propaganda contínua visando a moldar-lhes e unificar-lhes as mentes. Qualquer inovação em educação, legislação e religião deve ser evitada ou suprimida.

 

E) O Estado deve ser auto-suficiente. Deve visar à autarquia econômica, do contrário os governantes teriam de depender dos comerciantes ou tornar-se comerciantes eles próprios. A primeira dessas alternativas minar-lhes-ia o poder, a segunda solaparia sua unidade e a estabilidade do Estado.

 

Creio que tal programa pode ser classificado, com justiça, como totalitário.

 

(POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos)

A Política em Platão – parte 3

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 05: A política, Questão 09: A arte em 26/09/2011 por Gustavo Bertoche

Sobre a censura à arte na teoria política platônica

 

– E no entanto não acusamos ainda a poesia do mais grave de seus malefícios. Que ela seja, com efeito, capaz de corromper até as pessoas honestas, eis o que sem dúvida é realmente temível.

 

– Seguramente, se ela surte tal efeito.

 

– Ouve, e considera o caso dos melhores dentre nós. Quando ouvimos Homero ou qualquer outro poeta trágico imitar um herói na dor, o qual, em meio de seus lamentos, se estende em longa tirada, ou canta, ou se golpeia no peito, sentimos, como sabes, prazer, abandonamo-nos para acompanhá-lo com nossa simpatia e, em nosso entusiasmo, louvamos como bom poeta aquele que, no mais alto grau possível, provocou em nós tais disposições.

 

– Sei disso; como poderia ignorá-lo?

 

– Mas, quando um infortúnio doméstico nos fere, já reparaste sem dúvida que temos como ponto de honra manter a atitude contrária, isto é, permanecer calmos e corajosos, porque assim age um homem e porque a conduta que há pouco aplaudimos só convém às mulheres.

 

* * *

 

– Assim, pois, Glauco, quando te deparares com panegiristas de Homero, afirmando que este poeta efetuou a educação da Grécia e que, para administrar os negócios humanos ou ensinar o seu manejo, é justo tomá-lo em mão, estudá-lo e viver regulando por ele toda a existência, deves por certo saudá-los e acolhê-los amigavelmente, como homens que são tão virtuosos quanto possível, e conceder-lhes que Homero é o príncipe da poesia e o primeiro dos poetas trágicos, mas saber outrossim que, em matéria de poesia, não se deve admitir na cidade senão os hinos em honra dos deuses e os elogios à gente de bem. Se, ao invés, admitires a Musa voluptuosa, o prazer e a dor serão os reis de tua cidade, em lugar da lei e deste princípio que, por comum acordo, sempre foi considerado o melhor: a razão.

(Platão, A República, 2ª ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 224 ss).

A Política em Platão – parte 2

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 05: A política em 25/09/2011 por Gustavo Bertoche

- A democracia, segundo creio, nasce, então, quando os pobres, derrotando os outros, em parte os matam, em parte os expulsam (…) e como é um governo semelhante? Não é talvez antes de tudo o Estado cheio de liberdade, também de palavras, e no qual cada um tem a faculdade de fazer o que mais deseje? Cada um segue o modo de vida que mais lhe agrada. (…) Será, ao que parece, um governo agradável, anárquico e variável, que distribui uma certa igualdade aos iguais e aos desiguais. (…) Este é, meu caro, o princípio tão belo e temerário de que nasce a tirania. (…) Parece que o excesso de liberdade não conduz a um excesso de escravidão dos indivíduos e dos Estados.

(Platão, A República)

A Política segundo Platão – parte 1

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 05: A política em 24/09/2011 por Gustavo Bertoche

- No Estado, todos vós sois irmãos (…) mas o deus, ao plasmar-vos, a todos os que eram aptos para mandar, infundiu ouro em vosso interior ao gerar-vos, por serdes os mais dignos; misturou prata na composição de todos os aptos para serem defensores; porém, ferro e bronze na composição dos camponeses e outros artesãos. (…) Aos governantes, principalmente, e antes de tudo, ordenou o deus que nada vigiem melhor do que à prole (…) e se um seu filho chegar a conter bronze e ferro, de nenhuma maneira se apiedem, mas dando-lhe um cargo adequado com a sua natureza, o releguem entre os artesãos e os camponeses, e se, em troca, um destes nascer com mistura de ouro e prata, honrando-o, elevem-no à classe dos guardiões ou defensores.

(Platão, A República)

 

– Aqueles que se possuem por meio de compra, que sem discussão possam chamar-se escravos, não participam em absoluto da arte régia.

 

– E de que maneira poderiam participar?

 

– E então? E todos os que entre livres se dedicam espontaneamente a atividades servis, como os anteriormente citados, transportando e permutando os produtos da agricultura e das outras atividades; aqueles que, indo de cidade em cidade, nos mercados, por mar ou por terra, trocando dinheiro por outras coisas ou por dinheiro, aqueles a quem chamamos de banqueiros, comerciantes, marinheiros e revendedores, poderiam por acaso reivindicar para si algo da ciência política? (…) Mas nem mesmo os que vemos dispostos a prestar serviços a todos por salários ou por mercês, nunca os encontraremos partícipes da arte de governar… Que nome lhes daremos?

 

– Como agora acabas de dizer: servidores, mas não governadores dos Estados.

(Platão, Político)

O Estado segundo Péricles

Postado em Filosofia, Filosofia antiga, Questão 05: A política em 23/09/2011 por Gustavo Bertoche

Péricles tinha sido escolhido para pronunciar o elogio dos primeiros guerreiros mortos. Quinze vezes estratego, é o homem mais eminente em Atenas e o primeiro em tudo, quer pela palavra quer pela ação… Chegado o momento, aproxima-se do túmulo, colocado alto, a fim de ser ouvido do mais longe possível pela multidão. (…) “A nossa constituição não inveja as leis dos nossos vizinhos”. Ela é antes o protótipo das leis dos outros Estados. “Não imitamos os outros. Pelo contrário, servimos de modelo a alguns”. Este governo, próprio de Atenas, “recebeu o nome de democracia, porque a sua direção não está na mão de um pequeno grupo, mas sim da maioria”. (…) “Um temor salutar impede-nos de faltar ao cumprimento dos nossos deveres no que toca à pátria. Respeitamos sempre os magistrados e as leis”. Perante elas, todos os atenienses são iguais, iguais na vida privada, “iguais na solução dos conflitos entre particulares, iguais na obtenção das honras as quais são devidas aos méritos e não à classe”. “Podem-se prestar alguns serviços ao Estado? Ninguém deve ser rejeitado por ser desconhecido ou pobre… Os mesmos homens dedicam-se aos seus assuntos particulares e aos do governo. Os que têm como profissão o trabalho manual não são afastados da política”. (…) Isto não representa para eles somente um direito, mas um dever, visto que todo aquele que se desinteressa do governo da cidade é malvisto. Não existe distinção permanente entre governantes e governados. Cada um será, por seu turno, governante e governado. Vê-se nesta alternância, não sem razão, um dos traços fundamentais da democracia.

 

À igualdade de direito perante a lei (isonomia) corresponde a igualdade do direito à palavra na assembléia (isogoria). “Todos exprimimos livremente a nossa opinião sobre os assuntos de interesse público”. “Não acreditamos que os discursos entravem a ação; o que nos parece prejudicial é não nos esclarecermos primeiro através do discurso sobre o que é preciso fazer”. Esta afirmação é capital. O orador ateniense confessa a sua crença nas vantagens da deliberação. Na Antiguidade, esta é necessariamente oral, visto que os meios de escrita são, tecnicamente, muito limitados. Por outro lado, apresentando a opinião dos atenienses sob uma forma negativa: nós não acreditamos…, Péricles corresponde à concepção antagônica dos lacedemônios, para quem o silêncio e a brevidade das respostas, o “laconismo”, são considerados como virtudes individuais e como méritos coletivos. Inversamente, Atenas coloca-se sob a soberania da palavra eloqüente.

 

(Apud M. Prelot, As doutrinas políticas. São Paulo: Martins Fontes, v. I, p. 54).

A Alegoria da Caverna – Platão

Postado em Filosofia, Filosofia antiga em 21/09/2011 por Gustavo Bertoche

– Agora – continuei – representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha em toda a largura uma entrada aberta para a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que não podem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vêm de um fogo aceso sobre uma eminência, ao longe atrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imagina que, ao longo deste caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem à frente deles e por cima dos quais exibem as suas maravilhas.

 

– Vejo isso – disse ele.

 

– Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo gênero, que ultrapassam o muro, bem como estatuetas de homens e animais de pedra, de madeira e de toda espécie de matéria; naturalmente, entre estes portadores, uns falam e outros se calam.

 

– Eis – exclamou – um estranho quadro e estranhos prisioneiros!

 

– Eles se nos assemelham – repliquei – mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de si próprios e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está à sua frente?

 

– E como poderiam – observou – se são forçados a quedar-se a vida toda com a cabeça imóvel?

 

– E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo?

 

– Incontestavelmente.

 

– Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tomariam por objetos reais as sombras que avistassem?

 

– Necessariamente.

 

* * *

 

– Considera agora o que lhes sobrevirá naturalmente se forem libertos das cadeias e curados da ignorância. Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedirá de distinguir os objetos cuja sombra enxergava há pouco. O que achas, pois, que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira até então eram vãos fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneira mais justa? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas passantes, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é isso? Não crês que ficará embaraçado e que as sombras que via há pouco lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que ora lhe são mostrados?

 

– Muito mais verdadeiras – reconheceu ele.

 

 

* * *

 

– Imagina ainda que este homem torne a descer à caverna e vá sentar-se em seu antigo lugar: não terá ele os olhos cegados pelas trevas, ao vir subitamente do pleno sol?

 

– Seguramente sim – disse ele.

 

– E se, para julgar estas sombras, tiver de entrar de novo em competição com os cativos que não abandonaram as correntes, no momento em que ainda está com a vista confusa e antes que seus olhos se tenham reacostumado, não provocará riso à própria custa e não dirão eles que, tendo ido para cima, voltou com a vista arruinada, de sorte que não vale mesmo a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar soltá-los e conduzi-los ao alto, e se conseguissem eles pegá-lo e matá-lo, não o matarão?

 

– Sem dúvida alguma – respondeu.

 

–Agora, meu caro Glauco – continuei – cumpre aplicar ponto por ponto esta imagem ao que dissemos mais acima, comparar o mundo que a vista nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, posto que também desejas conhecê-lo. Deus sabe se ele é verdadeiro. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a idéia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direito e belo em todas as coisas; que ela engendrou, no mundo visível, a luz e o soberano da luz; que, no mundo inteligível, ela própria é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.

 

– Partilho de tua opinião – replicou – na medida em que posso.

 

(Platão, A República, 2ª ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 105 a 109).

Platão – por Copleston

Postado em Filosofia, Filosofia antiga em 20/09/2011 por Gustavo Bertoche

Platão, um dos maiores filósofos que existiram, nasceu em Atenas (ou em Egina) muito provavelmente no ano 428-427 a.C., no seio de uma família ateniense importante.  Seu pai se chamava Aristão, e sua mãe Perictione era irmã de Cármides e sobrinha de Crítias, dois personagens que figuraram entre os oligarcas de 404-403. Diz-se que originalmente se chamava Arístocles e que somente depois lhe foi dado o apelido Platão, aludindo às suas costas robustas, se bem que a autenticidade dessa informação, dada por Diógenes Laércio, é duvidosa. Seus dois irmãos, Adimanto e Glauco, aparecem na República, e tinha também uma irmã chamada Potone. Quando seu pai morreu, a mãe de Platão se casou com Pirilampo, e o filho deste segundo matrimônio, Antífon (meio-irmão de Platão) aparece no Parmênides. Sem dúvida alguma, Platão se educou na casa de seu padrasto, e embora fosse de ascendência aristocrática e sua infância tivesse passado em um ambiente aristocrático, se deve ter em mente que Pirilampo era amigo de Péricles, devido ao que Platão devia ser formado nas tradições do regime de Péricles. (Péricles morreu em 429-428). Vários autores assinalaram que a ulterior animosidade de Platão contra a democracia não era provavelmente devida unicamente à sua educação, mas devia-se à influência de Sócrates e, mais ainda, o tratamento que este recebeu da democracia. Por outro lado, tampouco é verossímil que a desconfiança de Platão com a democracia proviesse de uma época muito anterior à da morte de Sócrates. Durante a última fase da Guerra do Peloponeso (e é probabilíssimo que Platão combateu nas Arginusas, em 406), não pôde deixar de advertir ao fato de que a democracia necessitava de um líder verdadeiramente responsável e capaz, e que seus dirigentes s veriam obstaculizados a cada passo pela necessidade de agradar à massa do povo. A decisão de Platão de abster-se definitivamente de tomar parte na política de Atenas data sem dúvida do iníquo processo e da condenação de seu Mestre; mas a formulação de suas convicções sobre o navio do Estado necessitar de um piloto firme que o guie, e que este piloto deve ser um homem conhecedor da rota a ser seguida e pronto a atuar conscientemente segundo tal conhecimento, provavelmente foi gestada por ele já durante os anos do início do declínio do poderio ateniense.

 

(COPLESTON, Frederick. Historia da Filosofia)

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