Uma postagem anterior gerou uma resposta muito gentil do professor Daniel Brisolara, resposta que continha algumas questões interessantes. As questões foram:
Então os alunos já possuem o material que você elabora? Eles compram, ganham, tiram cópias?
Em uma escola, os alunos recebem o material bimestralmente, juntamente com os outros materiais preparados pela mesma editora. Em outra escola, compram o material diretamente da editora no começo do ano.
Sinto que não há materiais adequados ao nível intelectual dos alunos. Não sei se só comigo é assim, mas percebo há uma série de dificuldades seja porque os alunos não possuem um vocabulário lá muito rico – e hoje em dia vêm desenvolvendo dialetos próprios carregados de gírias – seja porque andam extremamente desatentos, seja porque conhecem muito pouco de história e outras informações de mundo que não permitem relacionar ou permitem de maneira extremamente precária o conteúdo explicado com o que já sabem.
Isso depende muito das escolas, das turmas e dos alunos. Já lecionei em escolas cuja totalidade dos alunos não tinham capacidade de acompanhar a mínima tentativa de abstração conceitual. Isso aconteceu, por exemplo, em uma escola estadual onde lecionei no começo do ano passado (passei no concurso, entrei, mas saí: não suportei a idéia de trabalhar sem ter a menor condição de trabalho). Contudo, atualmente trabalho em escolas que têm, em cada turma, pelo menos alguns alunos capazes de acompanhar raciocínios mais complexos, alunos que têm uma cultura de fundo que faz com que não apenas valorizem a filosofia, mas que se esforcem para compreender minhas aulas.
Não sei até que ponto é válido ou importante de fato relacionar a filosofia com o dia-a-dia dos alunos. E essas relações não acabam sendo de certa forma meio forçadas?
Acredito que um conhecimento só é importante quando faz sentido na experiência de quem conhece. A filosofia, sendo um conhecimento, só é importante se ajuda a explicar ou resolver questões que estão na vida de quem estuda. Claro que “questão que está na vida da pessoa” é uma expressão extremamente ampla: pode referir-se à solução de um problema no emprego ou no namoro, mas também pode referir-se ao problema da definição do conhecimento ou de um dilema ético. Colocar os problemas, inclusive criando questões na mente dos alunos, é uma tarefa que cabe ao professor. Por outro lado, se a filosofia é meramente a exposição detalhada de um conjunto de “filosofias”, sem nenhuma conexão com as questões importantes para alguém, então não vale a pena perder tempo estudando essa disciplina.
Não acha excessivo a parte de contexto histórico e história das idéias?
Eu vejo o ensino médio como um lugar no qual se pode fazer filosofia a partir dos problemas e a partir da história simultaneamente. De fato, essas são as duas formas tradicionais de se fazer filosofia: pelo contexto histórico e pelos problemas em si mesmos. Só não acredito que essas duas formas sejam excludentes, pelo menos quando se faz uma introdução à filosofia (ok, uma introdução em três anos – mas ainda uma introdução). Claro que isso exige um programa estruturado historicamente, e deixa muito menos margem para a livre escolha dos temas pela turma; contudo, o professor é o professor, ora, e é ele quem deve guiar o percurso, visto que é ele quem conhece o ponto de chegada do processo. Digo isso porque há uns dez ou doze anos, quando comecei a lecionar, utilizei um método a-histórico: a filosofia a partir somente de problemas. O resultado foi pífio. Sem um embasamento, cada aluno achava-se no direito de ter suas próprias opiniões, que eram consideradas tão válidas quanto as “opiniões” que eu dava. Pudera: os alunos não conheciam nada da história dos problemas que eu colocava! Como eu poderia querer que tivessem qualquer posição mais elaborada, se não conheciam os erros já reconhecidos pela tradição filosófica?
Como fazes para que os alunos ensaiem seus primeiros passos na filosofia propriamente dita?
Onde eu quero chegar: para fazer filosofia propriamente dita, os alunos precisam conhecer o modo como a filosofia foi feita, precisam ter contato com textos filosóficos, precisam conhecer a história dos problemas, que é a própria história da filosofia. A partir daí, é possível empreender uma série de pequenos passos:
- em primeiro lugar, é necessário saber interpretar um texto filosófico;
- em segundo lugar, é necessário saber relacionar as idéias de um texto com as idéias de outro texto, ou com outras idéias;
- em terceiro lugar, é necessário saber reconhecer argumentos, com suas teses e conclusões respectivas, e saber construir argumentos válidos;
- finalmente, dou-me por satisfeito caso o aluno consiga, em um pequeno ensaio (que não precisa passar de duas páginas), argumentar de modo rigoroso a favor ou contra uma tese filosófica que relacione-se com o problema discutido (por meio da história da filosofia) em sala de aula. Nesse ponto, deixo o aluno completamente à vontade para escolher se vai defender ou atacar a tese.
A respeito do ensaio, deixo claro que os critérios de avaliação são:
> a pertinência da tese defendida ou atacada em relação ao problema proposto;
> a qualidade dos argumentos dedutivos e/ou indutivos utilizados;
> a demonstração da conclusão do texto pela argumentação apresentada;
> a estruturação clara do texto (introdução, desenvolvimento, conclusão);
> a ortografia e a gramática.
Para cada item dou dois pontos (com a exceção do primeiro item; se não for integralmente cumprido, a redação volta ao aluno sem nota).
Assim, sempre que possível, espero que os alunos ensaiem seus primeiros passos com ensaios.
Ao professor Daniel, obrigado pelas perguntas.


