Entre 25 e 27 de maio de 2012 acontecerá em Porto Alegre (RS) o I Colóquio Nacional de Filosofia Clínica e Lógica Delirante.
Confira a Programação do Colóquio (em PDF).
Entre 25 e 27 de maio de 2012 acontecerá em Porto Alegre (RS) o I Colóquio Nacional de Filosofia Clínica e Lógica Delirante.
Confira a Programação do Colóquio (em PDF).
FÍSICA, III
Todo corpo sensível está por natureza em algum lugar, e há um lugar próprio para cada corpo, o mesmo para o todo e para cada parte sua; por exemplo, o mesmo para toda a terra e para um pouco de terra, o mesmo para o fogo e para uma centelha.
FÍSICA, IV
Os movimentos típicos dos corpos naturais elementares – fogo, terra, etc. – mostram não apenas que o lugar é alguma coisa, mas também que ele exerce uma certa influência. Cada coisa é levada ao seu próprio lugar, se não é impedida; uma coisa para cima, outra para baixo. Similarmente, também, “para baixo” não é uma direção, mas aonde o que tem peso e o que é feito da terra – a implicação é que esses lugares não diferem meramente em sua posição relativa, mas também por possuírem potências distintas.
De Caelo I
Todos os corpos e magnitudes naturais são capazes de locomoção; pois a natureza é seu princípio de movimento. Mas todo movimento que acontece em um lugar, toda locomoção, é ou reto ou circular ou uma combinação desses dois, que são os únicos movimentos simples. E a razão para isso é que esses dois, a linha reta e a linha circular, são as únicas magnitudes simples. A revolução em torno do centro é o movimento circular, enquanto os movimentos para cima e para baixo do centro são em linha reta, “para cima” significando o movimento do centro para fora, e “para baixo” o movimento na direção do centro. Todo movimento simples, então, necessariamente é um movimento para fora ou na direção ou em torno do centro. Isso parece estar de acordo com o que dissemos agora: um corpo tem sua compleição em três dimensões, portanto seu movimento se completa em três formas.
(…)
Podemos assumir que todo movimento é ou natural ou não-natural, e que o movimento que é não-natural para um corpo é natural para outro como, por exemplo, é o caso dos movimentos para cima e para baixo, que são naturais e não-naturais para o fogo e para a terra respectivamente. Daí segue-se necessariamente que o movimento circular, sendo não-natural para esses corpos, é o movimento natural de alguns outros. Além disso, se, de um lado, o movimento circular é natural para alguma coisa, essa coisa deve certamente ser algum corpo simples e primário que é levado a se mover com um movimento circular natural, assim como o fogo é levado a se mover para cima e a terra para baixo. Se, de outro lado, o movimento dos corpos que se movem circularmente em torno do centro é não-natural seria notável e, de fato, inconcebível que esse movimento sozinho deveria ser contínuo e eterno, sendo apesar de tudo contrário à natureza.
A análise da sociologia de Platão facilita a apresentação de seu programa político. Suas exigências fundamentais podem expressar-se por qualquer destas duas fórmulas: a primeira, correspondente à sua teoria idealista da mudança; a segunda, a seu naturalismo. A fórmula idealista é: Detenha-se toda mudança política! A mudança é maléfica; o repouso, divino. Toda mudança pode ser detida se se fizer do Estado cópia exata de seu original, isto é, a Forma ou Ideia da cidade. E se se perguntasse como seria isso praticável, poder-se-ia responder com a fórmula naturalista: Volte-se à natureza! Voltemos ao estado original de nossos antepassados, o estado primitivo fundado de acordo com a natureza humana e, portanto, estável; voltemos ao patriarcado tribal do tempo anterior à Queda, ao natural governo de classe dos poucos sábios sobre os muitos ignorantes.
Creio que praticamente todos os elementos do programa político de Platão podem derivar-se dessas exigências. Estas, por sua vez, baseiam-se em seu historicismo e têm de ser combinadas com suas doutrinas sociológicas relativas às condições para a estabilidade do regime de classe. Os principais elementos que tenho em mente são:
A) A estrita divisão de classes, isto é, a classe governante, consistente de pastores e cães de vigia, deve ser estritamente separada do gado humano.
B) A identificação do destino do Estado com o da classe dirigente; exclusivo interesse por esta classe e por sua unidade; e, subordinadas a essa unidade, regras rígidas para criar e educar essa classe, com estrita supervisão e coletivização dos interesses de seus membros.
Destes elementos principais outros podem ser derivados, como, por exemplo, os seguintes:
C) A classe governante tem o monopólio de coisas tais como as virtudes e o adestramento militares, e o direito de portar armas e de receber educação de qualquer espécie; mas é excluída de qualquer participação nas atividades econômicas, especialmente a de ganhar dinheiro.
D) Deve haver censura de todas as atividades intelectuais da classe dirigente e uma propaganda contínua visando a moldar-lhes e unificar-lhes as mentes. Qualquer inovação em educação, legislação e religião deve ser evitada ou suprimida.
E) O Estado deve ser auto-suficiente. Deve visar à autarquia econômica, do contrário os governantes teriam de depender dos comerciantes ou tornar-se comerciantes eles próprios. A primeira dessas alternativas minar-lhes-ia o poder, a segunda solaparia sua unidade e a estabilidade do Estado.
Creio que tal programa pode ser classificado, com justiça, como totalitário.
(POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos)
Sobre a censura à arte na teoria política platônica
– E no entanto não acusamos ainda a poesia do mais grave de seus malefícios. Que ela seja, com efeito, capaz de corromper até as pessoas honestas, eis o que sem dúvida é realmente temível.
– Seguramente, se ela surte tal efeito.
– Ouve, e considera o caso dos melhores dentre nós. Quando ouvimos Homero ou qualquer outro poeta trágico imitar um herói na dor, o qual, em meio de seus lamentos, se estende em longa tirada, ou canta, ou se golpeia no peito, sentimos, como sabes, prazer, abandonamo-nos para acompanhá-lo com nossa simpatia e, em nosso entusiasmo, louvamos como bom poeta aquele que, no mais alto grau possível, provocou em nós tais disposições.
– Sei disso; como poderia ignorá-lo?
– Mas, quando um infortúnio doméstico nos fere, já reparaste sem dúvida que temos como ponto de honra manter a atitude contrária, isto é, permanecer calmos e corajosos, porque assim age um homem e porque a conduta que há pouco aplaudimos só convém às mulheres.
* * *
– Assim, pois, Glauco, quando te deparares com panegiristas de Homero, afirmando que este poeta efetuou a educação da Grécia e que, para administrar os negócios humanos ou ensinar o seu manejo, é justo tomá-lo em mão, estudá-lo e viver regulando por ele toda a existência, deves por certo saudá-los e acolhê-los amigavelmente, como homens que são tão virtuosos quanto possível, e conceder-lhes que Homero é o príncipe da poesia e o primeiro dos poetas trágicos, mas saber outrossim que, em matéria de poesia, não se deve admitir na cidade senão os hinos em honra dos deuses e os elogios à gente de bem. Se, ao invés, admitires a Musa voluptuosa, o prazer e a dor serão os reis de tua cidade, em lugar da lei e deste princípio que, por comum acordo, sempre foi considerado o melhor: a razão.
(Platão, A República, 2ª ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 224 ss).
- A democracia, segundo creio, nasce, então, quando os pobres, derrotando os outros, em parte os matam, em parte os expulsam (…) e como é um governo semelhante? Não é talvez antes de tudo o Estado cheio de liberdade, também de palavras, e no qual cada um tem a faculdade de fazer o que mais deseje? Cada um segue o modo de vida que mais lhe agrada. (…) Será, ao que parece, um governo agradável, anárquico e variável, que distribui uma certa igualdade aos iguais e aos desiguais. (…) Este é, meu caro, o princípio tão belo e temerário de que nasce a tirania. (…) Parece que o excesso de liberdade não conduz a um excesso de escravidão dos indivíduos e dos Estados.
(Platão, A República)
- No Estado, todos vós sois irmãos (…) mas o deus, ao plasmar-vos, a todos os que eram aptos para mandar, infundiu ouro em vosso interior ao gerar-vos, por serdes os mais dignos; misturou prata na composição de todos os aptos para serem defensores; porém, ferro e bronze na composição dos camponeses e outros artesãos. (…) Aos governantes, principalmente, e antes de tudo, ordenou o deus que nada vigiem melhor do que à prole (…) e se um seu filho chegar a conter bronze e ferro, de nenhuma maneira se apiedem, mas dando-lhe um cargo adequado com a sua natureza, o releguem entre os artesãos e os camponeses, e se, em troca, um destes nascer com mistura de ouro e prata, honrando-o, elevem-no à classe dos guardiões ou defensores.
(Platão, A República)
– Aqueles que se possuem por meio de compra, que sem discussão possam chamar-se escravos, não participam em absoluto da arte régia.
– E de que maneira poderiam participar?
– E então? E todos os que entre livres se dedicam espontaneamente a atividades servis, como os anteriormente citados, transportando e permutando os produtos da agricultura e das outras atividades; aqueles que, indo de cidade em cidade, nos mercados, por mar ou por terra, trocando dinheiro por outras coisas ou por dinheiro, aqueles a quem chamamos de banqueiros, comerciantes, marinheiros e revendedores, poderiam por acaso reivindicar para si algo da ciência política? (…) Mas nem mesmo os que vemos dispostos a prestar serviços a todos por salários ou por mercês, nunca os encontraremos partícipes da arte de governar… Que nome lhes daremos?
– Como agora acabas de dizer: servidores, mas não governadores dos Estados.
(Platão, Político)
Péricles tinha sido escolhido para pronunciar o elogio dos primeiros guerreiros mortos. Quinze vezes estratego, é o homem mais eminente em Atenas e o primeiro em tudo, quer pela palavra quer pela ação… Chegado o momento, aproxima-se do túmulo, colocado alto, a fim de ser ouvido do mais longe possível pela multidão. (…) “A nossa constituição não inveja as leis dos nossos vizinhos”. Ela é antes o protótipo das leis dos outros Estados. “Não imitamos os outros. Pelo contrário, servimos de modelo a alguns”. Este governo, próprio de Atenas, “recebeu o nome de democracia, porque a sua direção não está na mão de um pequeno grupo, mas sim da maioria”. (…) “Um temor salutar impede-nos de faltar ao cumprimento dos nossos deveres no que toca à pátria. Respeitamos sempre os magistrados e as leis”. Perante elas, todos os atenienses são iguais, iguais na vida privada, “iguais na solução dos conflitos entre particulares, iguais na obtenção das honras as quais são devidas aos méritos e não à classe”. “Podem-se prestar alguns serviços ao Estado? Ninguém deve ser rejeitado por ser desconhecido ou pobre… Os mesmos homens dedicam-se aos seus assuntos particulares e aos do governo. Os que têm como profissão o trabalho manual não são afastados da política”. (…) Isto não representa para eles somente um direito, mas um dever, visto que todo aquele que se desinteressa do governo da cidade é malvisto. Não existe distinção permanente entre governantes e governados. Cada um será, por seu turno, governante e governado. Vê-se nesta alternância, não sem razão, um dos traços fundamentais da democracia.
À igualdade de direito perante a lei (isonomia) corresponde a igualdade do direito à palavra na assembléia (isogoria). “Todos exprimimos livremente a nossa opinião sobre os assuntos de interesse público”. “Não acreditamos que os discursos entravem a ação; o que nos parece prejudicial é não nos esclarecermos primeiro através do discurso sobre o que é preciso fazer”. Esta afirmação é capital. O orador ateniense confessa a sua crença nas vantagens da deliberação. Na Antiguidade, esta é necessariamente oral, visto que os meios de escrita são, tecnicamente, muito limitados. Por outro lado, apresentando a opinião dos atenienses sob uma forma negativa: nós não acreditamos…, Péricles corresponde à concepção antagônica dos lacedemônios, para quem o silêncio e a brevidade das respostas, o “laconismo”, são considerados como virtudes individuais e como méritos coletivos. Inversamente, Atenas coloca-se sob a soberania da palavra eloqüente.
(Apud M. Prelot, As doutrinas políticas. São Paulo: Martins Fontes, v. I, p. 54).
– Agora – continuei – representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha em toda a largura uma entrada aberta para a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que não podem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vêm de um fogo aceso sobre uma eminência, ao longe atrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imagina que, ao longo deste caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem à frente deles e por cima dos quais exibem as suas maravilhas.
– Vejo isso – disse ele.
– Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo gênero, que ultrapassam o muro, bem como estatuetas de homens e animais de pedra, de madeira e de toda espécie de matéria; naturalmente, entre estes portadores, uns falam e outros se calam.
– Eis – exclamou – um estranho quadro e estranhos prisioneiros!
– Eles se nos assemelham – repliquei – mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de si próprios e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está à sua frente?
– E como poderiam – observou – se são forçados a quedar-se a vida toda com a cabeça imóvel?
– E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo?
– Incontestavelmente.
– Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tomariam por objetos reais as sombras que avistassem?
– Necessariamente.
* * *
– Considera agora o que lhes sobrevirá naturalmente se forem libertos das cadeias e curados da ignorância. Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedirá de distinguir os objetos cuja sombra enxergava há pouco. O que achas, pois, que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira até então eram vãos fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneira mais justa? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas passantes, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é isso? Não crês que ficará embaraçado e que as sombras que via há pouco lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que ora lhe são mostrados?
– Muito mais verdadeiras – reconheceu ele.
* * *
– Imagina ainda que este homem torne a descer à caverna e vá sentar-se em seu antigo lugar: não terá ele os olhos cegados pelas trevas, ao vir subitamente do pleno sol?
– Seguramente sim – disse ele.
– E se, para julgar estas sombras, tiver de entrar de novo em competição com os cativos que não abandonaram as correntes, no momento em que ainda está com a vista confusa e antes que seus olhos se tenham reacostumado, não provocará riso à própria custa e não dirão eles que, tendo ido para cima, voltou com a vista arruinada, de sorte que não vale mesmo a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar soltá-los e conduzi-los ao alto, e se conseguissem eles pegá-lo e matá-lo, não o matarão?
– Sem dúvida alguma – respondeu.
–Agora, meu caro Glauco – continuei – cumpre aplicar ponto por ponto esta imagem ao que dissemos mais acima, comparar o mundo que a vista nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, posto que também desejas conhecê-lo. Deus sabe se ele é verdadeiro. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a idéia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direito e belo em todas as coisas; que ela engendrou, no mundo visível, a luz e o soberano da luz; que, no mundo inteligível, ela própria é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.
– Partilho de tua opinião – replicou – na medida em que posso.
(Platão, A República, 2ª ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 105 a 109).